Ronaldo Fraga: “A moda está enlouquecida para se libertar da roupa”

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Não é a primeira vez de Ronaldo Fraga em Teresina. Atração da noite do Piauí Moda House Fashion Day, o estilista mineiro dividiu com o público a sua primeira experiência em Teresina, em 2008, algo que ele leva até hoje em suas palestras. “A estada me emocionou muito e eu cito até hoje”, relembra. As muitas histórias, tendo a moda como pano de fundo, foram esmiuçadas na palco montado na Audi Center Teresina, no dia 29.

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A primeira visita a Teresina, para uma palestra promovida pelo Sebrae, surpreendeu pelo público. Inicialmente seriam 200 pessoas. Depois, por conta da grande procura, o local acabou sendo trocado por outro maior. “Isso nunca havia acontecido comigo até hoje. Mas o mais interessante é que quando abriram às perguntas, um rapaz de 20 anos me falou a sua história. Ele me disse que só foi ler Guimarães Rosa e Carlos Drummond Andrade após assistir a um desfile meu no canal GNT, no SPFW. Por que eu cito isso sempre? Porque a gente não tem noção do efeito que um trabalho possa dar. E mais do que isso, é que sendo a moda hoje um instrumento, um vetor de comunicação tão poderoso, a gente tem que tomar cuidado para não ficar falando das velhas coisas, do jeito antigo como se falava da moda”, disse.

Com 43 desfiles no currículo, Ronaldo Fraga vê na moda um forte instrumento de comunicação e conscientização de temas importantes, como o homicídio de transexuais e travestis, que torna o Brasil o primeiro do ranking mundial. Os dados viveram ato político, como ele mesmo definiu, na passarela da São Paulo Fashion Week através da coleção “El Dìa Que Me Quieras”.

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“A gente vive um momento no país que eu falo que são os anticorpos que a miséria está produzindo. E quando eu falo miséria, não é miséria financeira! É a miséria do nosso tempo. Está se criando um anticorpo que eu acho perigosíssimo, que é a indiferença. E essa história da indiferença sempre me incomodou”, enfatizou em sua fala ao público, citando alguns trabalhos onde deu voz e cara a grupos, até então, deixados à margem da sociedade.

“Por exemplo, eu fiz desfile com velhinhos em 2010 (todos os modelos eram pessoas idosas) que causou tanto impacto quanto esse agora. Só que hoje, você já vê uma luz sobre as pessoas velhas. Já vê uma história de uma população que está envelhecendo. Você vê a Nike, que fez uma campanha com uma senhora de 92 anos”.

Neste contexto, Ronaldo levou às passarelas e utilizou a linguagem poderosa da moda, para denunciar a situação dos refugiados, falar de adoção de animais e posse responsável, democracia da beleza, poluição dos oceanos, um grupo que ele chama como invisível. “Agora nós temos um outro grupo que a história é mais séria. Porque além de ser um grupo invisível, que as pessoas fingem que não vêem, mas as pessoas matam”, enfatiza ao falar dos transexuais e trangêneros mortos todos os anos no Brasil.

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No desfile, realizado na SPFW, a roupa foi apenas uma forma simbólica de se empoderar, de ser e existir. Nos bastidores, Fraga relembrou dos relatos de agressões que escutou dos modelos trans. “Tem muita violência em cima. O Brasil é o país que mais mata transexuais, travestis e no mundo. É alarmante isso. Teve um caso de uma travesti que estava desfilando para a gente que tem um dente meio torto, e ela estava nos contando que entrou em um shopping de luxo em São Paulo para comprar um presente para o irmão, e de repente ela passou e um ‘mauricinho’ estava vindo. Quando o rapaz passou por ela, deu um soco na boca. E ela só viu sangue na cara e o rapaz disse: isso aqui não é lugar de fazer ponto não. Então, a moda tem que falar disso? Eu acho que a moda também deve falar sobre isso e se manifestar sobre isso”.

O desfile tão comentado e aclamado pelo público estrangeiro, será apresentado também em outros países. A abordagem da temática até a escolha de todos o casting formado por transexuais, de acordo com Fraga, foi um aposta e um ato de coragem do estilista, que não sabia bem como o público reagiria.

“A moda que eu escolhi para fazer, o lugar na moda que eu escolhi, que é um vetor tão diverso, é esse: de político-cultural. Porque eu acho que esse lugar marca um espaço de tempo, estabelece diálogo com outras frentes, que não é a roupa. Eu acho que a moda está enlouquecida para se libertar da roupa! Os chineses fazem roupa e estão fazendo roupa muito bem. Acho que nós temos que começar a fazer outras coisas, entendeu, porque através da roupa você faz política, você vende um estado, um país, você reforça a memória. Você faz tanta coisa”, falou o estilista, bastante aplaudido pelo público.

Após o talk-show, Ronaldo Fraga atendeu aos pedidos de selfie do público, que fez fila para ter uma oportunidade a mais perto do estilista mineiro.

 

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