Sucesso no DFB festival, Brayann Ivanovick fala sobre moda autoral e o cenário piauiense

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Brayann Ivanovick é o que podemos falar de uma estilista corajoso. Sem medo de ousar e com muito talento na bagagem, levou à passarela do Dragão Fashion Festival, maior semana de moda autoral da América Latina, em Fortaleza- Ceará, uma coleção madura, com raízes africanas – longe do caricato –  aliada a um sotaque “nordestino”, vamos dizer assim. Sua África pop dividiu opiniões e elogios. O jornalista Augusto Bezerril, de Natal, escreveu:

“O estilista Brayann Ivanovick, representante da moda do Piauí no DFB Festival, tem lugar na lista #jadoro! de melhores instantes da semana de moda de Fortaleza. Mantendo essência autoral,  Ivanovick dialoga com o tema universal sobre a nova estética afro. O assunto vem sido dissecado em artigos desde o figurino do filme Pantera Negra às novas apresentações da planetária Beyoncé. No Brasil, Elza Soares reforça o verdeiro sentido da estética afro no ótimo figurino da turnê “Mulher do Fim do Mundo”.  Na passarela, o estilista visualiza um “afro futurismo”. A foto, clicada por Tatiara de França, traduz a beleza da estética ancestral e fresh do desfile. Lindo, lindo!  Do Piauí para qualquer lugar do mundo.  É super  #jadoro!”

Alexandre Schnabl, do site Ás na Manga, fez a seguinte análise sobre o trabalho do estilista piauiense:

“Formado em arquitetura, sua roupa ricamente elaborada demonstra o apuro construtivo de quem primeiro se aventurou pelo estudo do espaço para depois cair na elaboração têxtil. Trabalho moderno, mas maduro, que não peca nunca pelos arroubos que poderiam passar do ponto na obra de um novo designer. Nada regional, sabe pinçar da cultura local pequenos detalhes que tornam seu estilo único, sem ser étnico, como os cadarços que, saídos das vestimentas dos cangaceiros, ganham nova conotação. Ou os detalhes em renda e os belos bordados de pássaros e flores agrestes aplicados…

A Ivanovick consegue manter o frescor da criação pessoal, do estilo arrojado pleno de vocabulário próprio, e ainda dialogar com tendências internacionais das passarelas, sem nunca cair na mesmice. A África sertaneja de Brayann Ivanovick engloba as cores fortes da próxima temporada e ainda oferece detalhes que vão fazer toda a diferença, como barrados, detalhes metalizados, galões e babados assimétricos. Despidas dos elementos de styling, as peças de Ivanovick permanecem vanguarda, mas dizem a que vieram”.

Conversamos com o Ivanovick, que nos presenteou com o lindo editorial, clicado em terras cearenses com a participação das modelos piauienses Adria e Kayra Nascimentos, presentes também no desfile no Dragão Fashion Festival. Sem papas na língua, o estilista fala sobre a moda piauiense, falta de apoio dos órgão governamentais e agradece as empresas e parceiros que acreditam no seu trabalho:

“Quero deixar meu agradecimento com amor à Marize Barreto, proprietária da Zigg Brasil, minha patrocinadora oficial, Daniele Claudino por ser uma mulher com visão empreendedora que intermediou o apoio do Grupo Claudino, ao Lima da Limáquinas de Costura pelo suporte em maquinários de alta tecnologia, ao Allyson Alapont do Estúdio Elxva e ao arquiteto Samir Melo e a estilista Bruna Fernandes do Sereno Estúdio pelos acessórios. Gratidão!”.

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Primeiro, fale sobre a escolha do tema e como foi o processo criativo da coleção? O tema foi resultado de uma série de estudos que venho fazendo em comunhão com o estúdio ELXVA, e participação do estúdio Sereno, no quesito acessórios, onde a cultura e identidade do povo brasileiro são os objetos de pesquisa. A partir dessas observações e com o amadurecimento das informações obtidas, houve a necessidade de incorporar aos dados uma estética que há tempos vinha me encantando, que é o poder da imagem da mulher negra africana. Então, o processo criativo girou em torno desse hibridismo cultural, onde todos os resultados estéticos giram em torno de mulheres rainhas da força e beleza, com uma atmosfera futurista, cosmopolita e universal.

Qual foi a maior dificuldade que você sentiu neste trabalho? Dificuldades técnicas, ainda existe uma carência de profissionais da área de modelagem no Piauí que possam executar um trabalho diferenciado e de qualidade em montagem de peças, a maioria dos que procurei auxílio profissional se recusaram por serem peças um pouco complicadas. Porém minha entrada no Dragão Fashion se deu através de apresentação de um projeto conceitual que encantou a direção criativa do evento, e mesmo sem ter um suporte de profissionais técnicos consegui executar com sucesso tudo o que foi proposto no projeto, com o apoio da professora expert em modelagens do SENAC/PI, Danuzi Costa e da costureira Nanny Santana. Além disso existem também dificuldades financeiras, pois os custos para apresentação de um desfile num evento da magnitude do Dragão Fashion são altos e nós, criadores independentes, precisamos sempre contar com o apoio de empresas e do poder público para realizar esse tipo de trabalho.

A receptividade no Dragão Fashion Festival?! Repercussão foi o esperado? Eu fiz o melhor que pude, foi minha estreia no evento, meu primeiro desfile como estilista no lineup. Fiquei encantado com a repercussão, realmente não esperava a quantidade de críticas positivas feitas por profissionais da imprensa, jornalistas que admiro e que a partir de agora me colocaram como um talento promissor da nova geração da moda brasileira. Como resultado, já tenho o convite informal do idealizador do evento Cláudio Silveira para o próximo ano. Então, aguardem que vem mais projeto por aí e dessa vez mais ousado e maduro.

Se você pudesse, faria algo diferente? Sim, muitas coisas. A vida é um aprendizado, aprendi muito com tudo o que aconteceu durante os 45 dias de produção, estou satisfeito com o trabalho que desenvolvi e agora virão novas propostas com novos olhares e formas de se fazer moda.

Como você vê a moda piauiense e o apoio aos novos talentos, como você? Vou ser bem sincero com você, eu acredito que a moda piauiense nem exista de fato. São percepções equivocadas onde, de um lado meia dúzia de estilistas concentram todo o mercado em seus ateliês que são verdadeiras fábricas de cópias de vestuário a preços superfaturados. Do outro, uma onda fresca de estudantes e novos designers emergentes que vivem uma ilusão fashion com suas maxibags embaixo do braço, e do sol, e esquecem que eles precisam fazer roupas, projetos, para serem algo um dia. Com relação ao apoio, existem sim empresas que apoiam, como é o caso da empresa piauiense Limáquinas que já vem em seu segundo ano me oferecendo suporte em maquinário e agora o Armazém Paraíba, que forneceu toda matéria-prima em tecidos para confecção da coleção, além da cearense Zigg Brasil, minha patrocinadora oficial. No entanto, são iniciativa isoladas, sem nenhum incentivo governamental, que era quem deveria estar desempenhando esse papel.

Nesta questão de apoio, o que o Piauí precisa avançar? O Piauí precisa de profissionais nos órgãos públicos que sejam sensíveis aos projetos que levam o nome do estado a eventos internacionais como é o caso do Dragão Fashion Festival (Fortaleza – Ceará), em todos os ambientes eu era visto como o estilista do Piauí, em toda mídia fui citado como o estilista do Piauí, as pessoas me perguntavam sobre o Piauí, eu era o Piauí naquele lugar e naquele festival. Eu possuía um projeto bem elaborado, altamente profissional, que me garantiu entrada no maior evento da moda autoral da America Latina, mas que para os gestores de cultura do Estado e maioria das empresas que procurei, tudo o que eu tinha em mãos não significava nada. As pessoas precisam acreditar umas nas outras, na capacidade do outro, nós precisamos fazer algo não só por nós, mas por toda a sociedade, existe muita gente boa e talentosa no Piauí, e eu vou pegar de uma por uma e trazer para o meu lado com ou sem apoio do Governo.

Depois do desfile, você produziu um editorial incrível. Como foi a escolha das modelos e do local? O pós desfile é uma contrapartida feita pelo Allyson Alapont, diretor de cinema e fotógrafo de São Paulo, idealizador do estúdio ELXVA, que desde o início acreditou no meu projeto e veio para realizar um trabalho de direção de imagem e vídeo, bem como escolha de modelos e locação. A partir do conceito da coleção, escolhemos as dunas do Cumbuco que acolheu muito bem a estética que buscávamos, algo que remeta a imensidão e ao caminhar nômade rumo ao infinito, na mistura do primitivo com o futurista. Trabalhamos com a luz do sol poente, com raios tangenciais ao globo celeste, assim como dizem ser o mundo em tempos futuros. Mesclado com animação 3D, que foi feita exclusivamente para o desfile e fashion film, que tem as falésias cearenses como inspiração.

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